Minha Viagem ao Japão e Okinawa

SkyTree – Tokyo

Minha viagem ao Japão foi sonhada por muitos anos. Ao menos, 8 anos. Como todo sonho, sempre começa pequena, no mundo das ideias, e praticamente impossível de realizar. Mas conforme o tempo vai passando, vai ganhando mais força, e vai se tornando mais palpável.

Tudo começou em 2010, quando durante uma viagem a Curitiba, perguntei pro meu pai qual era a viagem dos sonhos dele, e curiosamente ele respondeu “Japão”. Eu digo curiosamente, porque meu pai sempre se mostrou o menos interessado da família dele em relação à cultura japonesa e seus hábitos. Mas então ele me disse que queria muito conhecer a terra onde os pais dele nasceram, ver pessoalmente os lugares que eles passaram. Naquele momenti meu pai também demonstrou uma certa frustração por acreditar que ele nunca conseguiria realizar esse sonho. Instantaneamente, aquele sonho do meu pai se instalou em mim, e eu acreditava que eu era uma das poucas pessoas que poderiam ajudá-lo a realizar aquele sonho. Eu nem falava japonês e nem tinha dinheiro, mas tinha a coragem de embarcar nessa aventura com ele.

Nos próximos anos, a vida foi tomando um rumo bem diferente. Eu mudei de emprego, comprei um apartamento, me casei, fiz uma pós-graduação, e depois me mudei para o Canadá para estudar novamente e tentar imigrar. Obviamente, em meio a montar minha vida, não sobrou muito dinheiro e oportunidade para que eu pudesse viajar para o Japão com meu pai.

Logo que eu me formei no college (faculdade) em Toronto, minha tia e meu pai combinaram de ir para o Japão. Eu já não era necessária para meu pai realizar o sonho, mas eu também passei a sonhar com isso. De alguma maneira eu consegui ir, e nada acontece por acaso. Foi de longe, a melhor viagem da minha vida: eu pude estar com meu pai, tios, tias e primos que não via há muitos anos. Todos em um clima de diversão, de alegria de conseguir se reunir novamente, e para meu pai e eu, a chance de se conectar com as raízes perdidas há muitas décadas.

Tokyo, Nagoya e Kyoto

As primeiras cidades que eu visitei no Japão em Honshu (a ilha principal) foram Tokyo, Nagoya e Kyoto. A visita a Tokyo foi extremamente rápida, mas linda. Eu sempre tive muita vontade de conhecer a cidade à noite, e foi como eu esperava. Nós passamos pela Skytree e a antiga Torre de Tokyo, que se assemelha à Torre Eiffel. Por tantos anos eu a vi nos desenhos animados japoneses, e eu sonhava em ver de perto.

torre de toquio

No dia seguinte fomos para a Disney Tokyo visitar o Mickey. O mais engraçado de tudo, é que todos os brasileiros sonham em ir para a Disney, e é o primeiro lugar que eles costumam ir quando saem do país. Eu amo os desenhos e filmes da Disney, mas nunca a coloquei como prioridade. E como as coisas acontecem para quem menos está esperando, acabei tendo a super oportunidade de ir visitar a Disney, mesmo sem ser o meu maior sonho haha. Eu me diverti muito, e na próxima vez que for para o Japão, eu pretendo visitar o parque da Universal, que fica em outra cidade, Osaka.

A cidade de Nagoya fica próxima de onde minha família mora, e passei por lá algumas vezes. É uma cidade muito bonita, com lindas paisagens urbanas, e um castelo maravilhoso.

Agora, Kyoto foi um dos pontos altos da minha viagem. Basicamente, você consegue encontrar em Kyoto um pouco de tudo o que é tradicional e icônico no antigo Japão. Castelos, templos, corredores gigantes de bambus, etc.

Lá em um momento foi a capital japonesa, e existe um antigo palácio que hoje foi transformado em museu para visitação. O palácio de Kyoto tem arquitetura tradicional japonesa e é lindo, com todas as salas forradas por antigas pinturas de tsuros (ave tradicional da região), peônias, árvores, bonsais, etc. É um deslumbre para quem gosta de arte e arquitetura, uma pena que não é permitido tirar fotos do lado de dentro!

O lugar que eu mais gostei em Kyoto, foi um templo conhecido como “Mil Portões”. Lá existem muitos portais (torii) em sequência, formando longos corredores de portais de oferendas no meio da montanha, ao longo de 4km de trilhas. Chegamos lá no domingo com o sol ainda nascendo. E caminhamos em meio as centenas de torii junto com o friozinho da manhã.

Lá basicamente é um local onde as pessoas vão para que sejam atendidas suas preces e desejos. Muitas pessoas fazem oferendas, orações, e algo que me chamou muita atenção: origamis. Como uma forma de promessa, muita gente faz extensos colares de origamis de tsuros, sempre múltiplos de 100, e penduram nos templos e outros lugares de homenagem.

O Japão high tech que todos esperavam ver

Nos meses anteriores a minha viagem, toda vez que alguém ficava sabendo que eu ia viajar, ficava animado por mim, e me pedia para postar fotos todos os dias. Mas a maioria das pessoas que estavam curiosas, me falavam para tirar fotos das máquinas malucas, das coisas high tech que eu veria lá, e das comidas exóticas. Mas primeiro de tudo: apesar de eu ter aproveitado passar em vários pontos turísticos, eu não fui para lá para conhecer os lugares-comum do país, eu fui para visitar minha família, que tem origem em uma ilha ao sul do Japão, chamada Okinawa.

É um lugar totalmente diferente do que costumamos ver quando ouvimos falar de Japão. Lá é basicamente o Havaí japonês. Uma ilha paradisíaca de clima tropical localizada no meio do Oceano Pacífico, que sobrevive basicamente do turismo e da plantação de frutas.

Então, para todos os amigos que queriam acompanhar minhas fotos de robôs e de mangás… sinto muito, fica para a próxima vez!

A visita a Kobe e Okinawa

Eu passei por várias cidades durante minha viagem, mas as que me tocaram mais forte emocionalmente falando, foram Kobe e Okinawa, por razões extremamente pessoais.

Um dos lugares que eu fui em Kobe, foi o Museu do Terremoto. Eu estava em clima de diversão e festa com minha família, fazendo piadas o tempo todo. Assim que eu entrei no museu, isso mudou por algumas horas. Já nos primeiros minutos de visita, eles mostraram um vídeo que misturava cenas reais e simulações do grande terremoto de 1995, que devastou a cidade e ceifou muitas vidas. Ali eu já precisei engolir o choro em seco. Durante a visita, vi outros depoimentos de pessoas que perderam tudo, e de alguma maneira, conseguiram encontrar forças para reconstruir. No final de tudo, a grande mensagem do museu é a de que nem sempre é possível prever grandes desastres naturais, mas é possível usar de prevenção, tecnologia e segurança para conseguir evitar as grandes perdas.

Outro lugar que visitei em Kobe, foi o museu da Migração Japonesa. Em 1908 o Japão não era a superpotência que viria a ser no final do século XX, e era basicamente um país com excesso de mão de obra rural e falta de terras. Na época foram criados programas de incentivo para que os japoneses fossem trabalhar nas lavouras de outros países, especialmente na América Latina e América do Norte. O país que mais recebeu imigrantes japoneses foi o Brasil, que hoje tem a maior colônia japonesa fora do Japão em todo o mundo. Quem já foi para a Liberdade em São Paulo, sabe disso!

Antigas propagandas divulgando os programas de migração para o Brasil

O primeiro navio que saiu do Japão carregado de emigrantes, foi o Kasato Maru, em 1908. A partir disso, os programas de emigração começaram a se popularizar, especialmente para o povo de Okinawa. Em Kobe, ficava localizado um centro de treinamentos, no qual todos os japoneses passavam cerca de 10 dias em um curso intensivo sobre a cultura e a língua do país de destino. O centro funcionou até o início dos anos 70, quando o Japão começou a prosperar economicamente e já não havia mais interesse da população em sair do país.

Posteriormente, esse centro de treinamentos foi transformado no Museu da Migração Japonesa, contando a saga dos que saíram do país. Como o Brasil foi o país que mais recebeu imigrantes japoneses, há muito material em português no museu.

Quando meus avós foram para o Brasil em 1932, o plano sempre foi de retornar para o Japão após alguns anos. Entretanto, em 1940 estourou a Segunda Guerra Mundial, e eles desistiram do plano de retorno. Como o Brasil aliou-se aos Estados Unidos, foram cortadas as ligações diplomáticas com o Japão, e inclusive a embaixada e consulado japoneses no Brasil foram fechados. Os japoneses que moravam no Brasil ficaram “órfãos”, e muitos perderam contato com suas famílias no Japão, sem sequer saber se eles estariam vivos ou não durante o período da guerra. Já no pós guerra, um Japão destruído tentava se reconstruir, e muitas pessoas perderam suas casas, telefones e seus endereços, tornando uma tarefa quase impossível de restabelecer o contato com os parentes do outro lado do mundo.

Eu sempre ouvi essas histórias do meu pai, mas ver no museu, foi bastante impactante. Especialmente agora que eu sei o que é ser uma imigrante. Há pouco mais de 3 anos eu mudei para o Canadá, e obviamente que mudar de país hoje é totalmente diferente do que meus avós fizeram há quase um século atrás. Hoje temos internet, vôos rápidos, redes de amigos indo para o Brasil todo o mês, e muito mais. Ainda assim, eu passei pelo processo de chegar em uma terra estranha em que ninguém te conhece, e começar a sua vida do zero. Você não tem identidade, você não tem história, não tem raízes com o seu novo lugar, e aos poucos tem de construir tudo isso de novo. Não importa o quanto você se adapte à cultura local, você sempre ficará dividido. Você passará a ser um peixe fora da água, seja no país de origem ou no país de destino. Ir ao Japão após eu ter me mudado para o Canadá, me fez entender melhor tudo o que minha família passou ao imigrar para o Brasil.

Por um lado, se em Kobe eu consegui entender o que a minha família passou quando foi para o Brasil, em Okinawa eu tive a chance de conhecer a história dos que ficaram no Japão. Chegando lá, eu conheci uma irmã da minha avó, e alguns primos do meu avô, além de vários outros familiares. Tudo o que eu ouvi, foram histórias de guerra e de sobrevivência. Alguns deles conseguiram escapar para Taiwan, e retornaram após término da guerra. Outros ainda ficaram, e falaram de suas feridas de guerra, de estilhaços de granada alojados em seus corpos. Mas todos falaram de seus entes queridos e familiares próximos que faleceram durante a guerra.

Quando se fala de Segunda Guerra Mundial e Japão, a maioria das pessoas pensam nas bombas atômicas que devastaram Hiroshima e Nagasaki. E de fato, foi uma grande tragédia sem limites para a humanidade. Mas o que poucas pessoas desconhecem, é o fato de que Okinawa foi um dos grandes palcos da devastação no Japão durante a guerra. A sua localização estratégica que por muitos anos foi motivo de benção para aquela terra, tornou-se motivo de sua destruição. Os Estados Unidos atacaram Okinawa de maneira intensa, e instalaram uma base militar na ilha, ocupando várias partes oficialmente até a década de 70, quando então ela foi totalmente reintegrada ao Japão novamente.

Em minha visita eu fui ao Memorial da Paz, onde houve o maior massacre e suicídio coletivo durante a Batalha de Okinawa. Ali encontra-se centenas de pedras com milhares de nomes das vidas que se perderam ali, muitas delas com o sobrenome “Oshiro” lapidado. Oshiro é um sobrenome comum na região, e obviamente nem todos são da minha família direta, mas mexeu muito comigo ver a infinidade de nomes das pessoas que perderam suas vidas ali.

O que é o Japão, e o que é Okinawa

Tem diferença? Tem sim, e eu mesma até poucos anos atrás mal sabia da diferença entre Japão e Okinawa, pra mim era tudo a mesma coisa. Afinal de contas, a maioria dos brasileiros acham que asiáticos são todos iguais, quanto mais saber diferenciar um japonês do Japão com um japonês de Okinawa haha

A primeira característica mais evidente, é que os japoneses de Okinawa são por natureza mais morenos e bronzeados que os outros. Dá pra dizer que são os japas caiçaras! Eu só tenho essa brancura toda porque eu saí o lado europeu da família, não o lado japonês rsrs E essa característica de pele mais escura vem justamente do fato que mencionei antes, de Okinawa ser uma espécie de “Havaí japonês”.

Em questões culturais, há ainda mais diferenças. Há vários séculos atrás, Okinawa era uma terra independente, chamada Reino de Ryu Kyu, e teve na sua origem membros da dinastia chinesa. Pelo fato de Okinawa estar localizada em um ponto estratégico no meio da Ásia – com fácil acesso para o Japão, China, Coréia, Taiwan e Filipinas – ela acabou tornando-se uma grande comerciante com todos os países.

Durante os séculos que se passaram, o povo de Okinawa sempre promoveu festas para honrar seus convidados de vários países, incorporando aspectos de cada um deles e transformando-se em uma nova cultura. Okinawa possui hábitos próprios e alheios ao Japão, como outro dialeto, arquitetura, danças, músicas e tradições. Até mesmo os guardiões da ilha, são dois leões que mais parecem com dragões chineses.

Inclusive, por serem tão diferentes do japonês tradicional, ainda existe até hoje um certo preconceito dos japoneses para com os okinawanos. Eu confesso que enquanto eu crescia, eu sabia que minha família era japonesa, mas eu sinceramente não conseguia encaixá-la nos estereótipos tradicionais de um japonês “comum”. Conforme eu fui conhecendo e entendendo mais sobre o que é Okinawa e o que é o Japão, eu fui entender porque eu achava que era diferente. Porque era mesmo!

O Japão carrega milênios de histórias de samurais, imperadores e lutadores, mas os nativos de Okinawa nunca foram essencialmente um povo guerreiro. Os okinawanos sempre foram conhecidos pelo estilo de vida mais calmo, mais rural e festeiro. Durante a Segunda Guerra, eles foram encurralados e obrigados a entrar em uma batalha sem precedentes em toda a história da ilha, e em muitos momentos sem contar com o apoio do Japão, que também estava sendo destruído durante a guerra. Hoje, a ilha paradisíaca carrega muito mais do que as belezas naturais: carrega também uma história centenária, rica de mudanças e de luta pela sobrevivência.

O meu processo de aceitação da minha origem asiática

Meus amigos de infância e adolescência sabem que por muito tempo eu neguei minhas raízes japonesas. Eu, como toda criança mista, não sabia muito bem definir minha identidade e tinha sempre a sensação de não pertencer a lugar nenhum. Quando eu era criança, os outros colegas de escola me chamavam de japonesa, mas eu olhava no espelho e eu achava que era igual a eles. Eu não conseguia enxergar que meus olhos eram diferentes. Lembro mesmo de um episódio por volta dos 7 anos de idade, no qual eu perguntei para a minha avó “italiana” se eu parecia japonesa. Ela disse que sim, e eu fiquei chocada! Eu fiquei por vários minutos sozinha na frente do espelho, olhando para minha cara, sem conseguir me identificar com nada.

Conforme eu fui crescendo, eu fui sofrendo efeitos positivos e negativos da minha origem asiática. As crianças da escola supunham que eu deveria ser boa em matemática, pelo simples fato de ser oriental. E “ai” de mim se eu não soubesse! Uma vez uma menina me pediu para passar cola de matemática na prova, e eu não passei, porque eu não tinha a resposta nem pra mim mesma. Depois da aula, essa menina ameaçou me bater, porque eu fui “cuzona” e não passei a cola. As crianças ficavam puxando os olhos pra falar comigo, faziam brincadeiras que eu não gostava, mas eu não sabia sequer explicar o motivo. Acho que nos anos 90 tudo ainda era permitido, né? Rsrs

Já na adolescência, as coisas começaram a mudar, e o preconceito ruim aos poucos foi se tornando um preconceito “bom”. Eu tinha um rosto levemente asiático, e o restante de brasileira, o que atraía garotos com um gosto bem específico. Eu ficava muito brava com isso, e quando eu sabia que um rapaz que gostava de asiáticas se interessava por mim, eu o rejeitava na hora. Na minha bobeira adolescente misturada com minha falta de aceitação própria, não me deixavam ver que todo mundo tem um tipo físico que se sente atraído, e não há exatamente um problema com isso.

Mas com o tempo isso começou a mudar. Eu lembro que uma vez um colega de classe precisou escrever uma peça de teatro para crianças, e tinha um personagem que era um samurai. Ele se inspirou no meu sobrenome e resolveu nomear o personagem de “Oshiro”, porque achava bonito. Eu ri bastante, mas achei interessante, porque até então eu não dava muita bola para meu nome.

Mas por mais triste que possa parecer, confesso que o meu processo de aceitação das minhas origens só começou de fato a partir dos 22 anos de idade, altamente influenciado pela própria aceitação da sociedade brasileira para com a japonesa. Em 2008, foi a comemoração do centenário da imigração japonesa no Brasil e no mundo. Coincidência ou não, foi exatamente nessa mesma época que o Japão virou pop. Foi quando em que a culinária japonesa começou a se popularizar no Brasil, aumentou o número de escolas de mangá, de japonês, de lutas marciais e até mesmo começamos a ver mais celebridades asiáticas na televisão. Foi também o ano em que eu comecei a me reaproximar mais do lado japonês da minha família, e também a primeira vez que eu fui em um festival de Okinawa em São Paulo, na Vila Carrão.

Ao longo dos últimos anos, eu bem aos pouquinhos, fui entendendo e aprendendo melhor sobre a cultura japonesa. Opostamente, foi exatamente na minha vida adulta que de alguma maneira, eu fui ficando menos parecida fisicamente com japoneses, e a maioria das pessoas acabava até por não perceber que eu tinha origens asiáticas haha.

No meio disso tudo, eu fui assumindo também a minha identidade como mestiça, e mesmo passei a usar o meu último nome com mais orgulho. Há poucos meses atrás eu resgatei um antigo vídeo engraçado que fiz com meus colegas de classe em minha primeira faculdade no Brasil. No final do vídeo, a minha assinatura era “Sílvia dos Santos”. Quando eu olhei aquilo eu me surpreendi muito! Eu não conseguia mais me identificar com esse sobrenome que eu usava para tentar esquivar da minha origem. Ao mesmo tempo, fiquei feliz ao ver que hoje eu me identifico e me orgulho de ser quem eu sou: meio japonesa, italiana, portuguesa, alemã, nascida no Brasil e morando no Canadá.

Antes eu pensava não pertencer a lugar algum, e hoje penso o contrário: eu pertenço a todos os lugares do mundo.

Eu não posso sequer dizer que essa viagem ao Japão mudou a minha vida, porque o mais correto seria dizer que de alguma maneira, ela fechou um gigantesco ciclo de 10 anos de autoconhecimento e descobertas. Hoje eu olho para mim mesma e consigo compor um grande mapa de quem eu sou, pensando em quem meus antepassados foram, de ambos lados da família. Esse mapa é complexo, de difícil leitura. Mas olhar para essa história do passado me faz entender melhor meus passos para o futuro. Imagens e histórias que ficarão para sempre gravadas em minha memória e me ajudarão a guiar meus passos.

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Como se livrar de bed bugs

'Sleep tight - don't let the bedbugs bite!'

Pouca gente gosta de escrever sobre esse assunto porque ainda é meio que um tabu. Mas eu sempre adorei falar sobre o que ninguém mais está falando, então vamos lá! Se você é brasileiro(a) e se mudou para o Canadá ou Estados Unidos, deve ter ouvido falar do tão temido bed bug (percevejo). Um serzinho desprezível que gosta de se alojar nas camas, sofás e estofados da casa, furtivamente picando os moradores durante a noite enquanto eles dormem. Vou passar aqui um guia completo do que fazer para se livrar e se prevenir da infestação desse parasita em casa.

Sou Pobre mas sou Limpinho

Gente, vamos ser sinceros sobre algo: a limpeza influencia sim para pegar bed bug, mas não é o único fator. Não pense que por você manter a sua casa limpa que você está isento de pegar também. Esse inseto é extremamente oportunista e gosta de se instalar da forma mais inusitada, não importa onde você more, o quanto sua casa seja limpa, a localização ou mesmo o quanto você paga no aluguel.

Claro, a localização é um dos fatores de risco, mas não é o principal fator. Entretanto, se você puder, antes de se mudar para um novo prédio, busque informações na internet sobre o número de ocorrências de bed bug nos últimos anos. Tenha em mente que essas estatísticas são levantadas com base nas companhias que fazem pest control (dedetização) nos prédios, e que algumas ocorrências não necessariamente querem dizer que houve uma infestação. Por exemplo, se o morador sente picadas de pernilongo e acha que pode ser bed bug e chama o pest control, também entra na estatísticas.

Outras ocorrências são positivas para a presença do inseto, mas não necessariamente indicam a infestação massiva. Pois, com um único inseto em casa, você pode vir a ser picado e pedir para que o pest control venha. Então, quando você ver que já teve bed bug em uma casa, não necessariamente significa que o lugar estava infestado até o teto de bed bugs! Rsrs Significa muitas vezes que houve uma requisição do morador para a dedetização. As dedetizações preventivas que os landlords e proprietários solicitam, não costumam entrar nessas estatísticas, até porque em geral elas também estão sendo feitas para prevenir outros insetos, como baratas, aranhas, carrapatos, pulgas, etc.

O que mata o bed bug?

Calor extremo e frio extremo. Se livrar dos bed bugs pode ser muito mais simples e ao mesmo tempo muito mais difícil do que você imagina. O que acontece é o seguinte: poucos produtos químicos são realmente eficazes contra o bicho, uma vez que ele se esconde no meio dos estofados, geralmente em lugares que nenhuma química vai conseguir alcançar. Porém, temperaturas muito altas ou muito baixas podem matá-lo de vez.

O procedimento padrão ao ter bed bug, é contatar o proprietário da casa ou o próprio serviço de dedetização e agendar uma data. Antes que o pest control venha, você precisará tirar todas as roupas, toalhas e cobertores dos armários e gavetas, e colocá-los em sacos plásticos pretos bem fechados para isolar as roupas.

Já peguei o bed bug e vai demorar pra ajuda chegar

Você pegou o tal do bicho e o pest control vai demorar ainda uns 2 dias para vir. E obviamente você está sem dinheiro para comprar uma passagem somente de ida pro Caribe e nunca mais voltar. O que fazer?

Chamar o Chapolin Colorado?

Vinagre, bicarbonato, sal grosso e reza brava? Exorcismo?

É, nada disso vai ser muito efetivo contra os bichos… Mas algumas coisas podem ser feitas para dar uma inibida nos bed bugs a aparecerem por algumas horas até a dedetização chegar e você não morrer picado até lá.

Retire todas as suas roupas de cama, e coloque-as em um saco plástico preto separados para lavar. Esses lençóis podem ter vários insetos escondidos e você precisa isolá-los. Se você ainda não for lavar essa roupa de cama, deixe-a na sacada ou em uma área externa onde o saco pegue sol ou frio o dia todo.

Se possível, passe um aspirador de pó no colchão, além de algo bem quente, como um secador de cabelos ou um steamer. Capriche nos cantinhos e frestinhas. Depois disso, jogue bicarbonato, borrife um pouco de vinagre ou álcool. Como comentei antes, isso não vai eliminá-los, mas pode ajudar a espantá-los um pouco para que você possa dormir à noite.

Usar repelentes para dormir não vai ajudar muito. Mas se você puder dormir de manga longa, calça comprida e meias, reduz a quantidade de pele exposta para que ele te pique.

Quando o pest control chegar, eles irão aplicar um produto químico no colchão, estrado e gavetas. É aconselhado o retorno para uma segunda aplicação cerca de 2 semanas depois, para ter a certeza de que o reforço do produto irá matar eventuais ovos que possam eclodir nesse tempo.

Há a possibilidade de que as roupas, cobertores e travesseiros estejam contaminados. Muita calma, não é preciso jogar nada fora (a menos que você esteja buscando uma desculpa boa pra renovar o guarda roupas! haha). Você precisará lavar tudo e colocar na secagem bem quente, pelo maior tempo que você conseguir. Se for algo muito denso, como um travesseiro ou edredom, é melhor repetir a secagem quente mais uma vez para garantir que o calor intenso vai chegar até o meio.

Dependendo da época do ano, você pode usar o clima a seu favor. Aquelas roupas que estão nos sacos plásticos, de repente podem ser deixadas em uma área externa no inverno ou no verão, pois a neve e o sol costumam a matar qualquer bicho que tiver lá. Uma idéia, é a de deixar todos os sacos na varanda enquanto você faz a limpeza interna, e daí ir pegando o saco que já ficou exposto à temperatura, e ir lavando aos poucos.

Não tenho bed bugs. Como prevenir?

Caso você tenha conseguido se livrar de todos eles, ou mesmo nunca pegou, existem coisas que podem te ajudar a prevenir pegar bed bugs na sua casa.

Bed bugs são percevejos, insetos caminhantes que não tem asas. Bed bug não voa, e dificilmente pula. A única forma de eles se espalharem, é andando de um lugar ao outro de forma bem discreta, pelo chão, paredes e pelos pés dos móveis.

Uma forma de evitar uma infestação, é a de colocar arapucas nos pés dos móveis estofados, como sofás e camas. Se você conseguir algum tipo de dispositivo grudento, como uma fita dupla face bem potente ao redor do pé da cama, ele ficará grudado quando tentar subir ou descer, e vai morrer.

Caso você faça isso, não se esqueça de afastar os móveis em alguns centímetros da parede, para evitar qualquer ponto de contato. Existem várias armadilhas para bed bug que vendem no supermercado, estilo armadilhas para barata que temos no Brasil. Mas elas costumam ser pouco eficientes, porque não é garantia que o bicho vai entrar ali. Quando você isola o acesso dele à parte estofada do móvel, você garante que mesmo que um bed bug se deposite diretamente no sofá, mas ele não conseguirá passar para o restante da casa.

Outra forma eficiente de ao mesmo tempo prevenir e se livrar do bicho, é comprar uma capa de colchão e travesseiro específica para bed bugs. Existem várias marcas vendidas na Amazon, Wal Mart, etc. Elas são capas com laminação de um material específico que asseguram que nenhum bed bug saia ou entre. Se por acaso você fez toda a dedetização, está tudo em ordem, mas percebeu que pode ser que um único bed bug ainda esteja dentro daquele colchão novinho que você acabou de comprar… a solução pode ser uma capa protetora.

Ao colocar essa capa, faz com que caso haja algum sobrevivente lá dentro, ele irá de morrer de fome em alguns meses. Normalmente os fabricantes recomendam que essa capa não seja retirada do colchão por no mínimo 6 meses. A capa é lavável e anti-ácaros, ajudando também pessoas que tem problemas alérgicos. Ela não deve substituir os lençóis, portanto você precisará colocar lençol e fronhas normalmente na cama, por cima dessa capa vedada.

Pegar bed bug é com certeza um transtorno, mas dá para eliminar e também prevenir futuras infestações. Tem alguma dica ou alguma história sobre isso para compartilhar? Deixe aqui nos comentários 😉

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Como o tempo pode ser decisivo no seu intercâmbio no Canadá

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Fazer um college (curso superior) no exterior pode ser uma experiência fantástica que irá te abrir muitas portas para o futuro. Nos últimos anos o Canadá tem sido um dos destinos favoritos de muitos estudantes internacionais, especialmente por conta das possibilidades de imigração após o término do curso. Mas nos últimos anos eu tenho visto algumas pessoas virem para cá sem ter uma noção muito boa de como o tempo pode influenciar o intercâmbio. Vou comentar aqui sobre como o tempo pode ser essencial para você acertar o seu intercãmbio:

Tempo de duração

Se seu objetivo principal é imigrar, em especial para a província de Ontário, considere a possibilidade de escolher um programa de ao menos 2 anos. Os cursos de pós-graduação de 1 ano, 1 ano e meio e fast track são populares justamente por serem mais curtos e consequentemente mais baratos, mas eles podem apresentar um certo risco na hora de imigrar.

Os semestres letivos no Canadá são mais curtos que no Brasil, com 4 meses ao invés de 6. Os cursos de 2 ou 3 semestres não possuem férias entre um semestre e outro (apenas uma rápida de pausa de 2 semanas), fazendo com que um programa de um ano e meio seja feito na verdade em um ano corrido. Exemplo: se o primeiro semestre do seu curso começar em maio de 2018, o segundo iniciará em setembro e o terceiro de dezembro a abril de 2019, sem férias.

O grande problema em si não é somente o tempo de estudos sem pausa, mas também que ao solicitar o Post Graduation Work Permit (PGWP), o estudante corre o risco de receber também apenas 1 ano corrido de visto, o que deixa arriscado o plano de imigração. O aluno após se formar, pode demorar alguns meses até conseguir se inserir no mercado de trabalho dentro de um NOC, completar 1 ano de experiência canadense e ganhar a pontuação necessária no Express Entry e aplicar para o visto permanente. Um curso de 2 anos ou mais pode ser a solução perfeita, pois dá mais tempo de se colocar no mercado e fazer a pontuação necessária para a imigração.

Começar a estudar no Verão, Outono ou Inverno?

Quando planejamos ir fazer um intercâmbio ou mudar de país, em geral pensamos na data mais conveniente para o atual momento, como: “quando eu conseguir pedir a conta do meu emprego”, “depois que eu vender um imóvel”, “assim que eu terminar meus estudos aqui”, “o quanto antes possível porque não aguento mais ficar aqui”, etc. O que infelizmente muitas pessoas ignoram é qual é o momento certo de chegar no Canadá, e não somente o momento ideal de deixar o Brasil.

Prever o “timing” mais favorável pode ser a receita para o sucesso ou fracasso de um futuro plano de imigração baseado em fazer um intercâmbio em um college. Exemplo prático: o ano letivo mais comum na América do Norte se inicia em setembro no semestre do Fall (Outono) e segue quase sem parar durante todo o inverno, acabando no final de abril do ano seguinte.

Após o término das aulas, o estudante tem 4 meses de férias conhecido como Summer Break, para poder viajar, trabalhos voluntários, trabalhos em período integral, etc. o Summer break pode ser extremamente estratégico para aqueles que possuem poucos fundos para arcar com as despesas, pois além de dar um intervalo maior entre os pagamentos de cada tuition fee (semestre), permite que o estudante trabalhe mais horas e por mais tempo para guardar dinheiro.

A regra para tirar as férias de verão (ou mesmo em alguns casos, existem férias de inverno, com duração semelhante), varia de acordo com o college e o curso escolhido, mas por via de regra, ao iniciar os estudos no Fall (setembro) em um curso de 2 anos ou mais, é a maneira mais certeira de se garantir esse intervalo de 4 meses e poder aliviar as contas e respirar um pouco do puxado ritmo de estudo.

Clima

Uma das outras grandes vantagens de começar o college em Setembro, é que você chegará no Canadá em algum momento entre a Primavera e o Verão. Mesmo que seja necessário estudar inglês ou francês durante alguns meses antes, ainda há uma janela de basicamente 6 a 8 meses sem precisar enfrentar o tão temido Inverno canadense. Há tempo o suficiente para pesquisar com calma e comprar roupas de inverno.

Quem chega no país entre de Dezembro a Abril, pode precisar sair correndo comprar o primeiro casaco de neve que encontrar, e improvisar com as roupas trazidas do Brasil por alguns dias. Por outro lado, chegando entre os meses de maio a agosto, há a oportunidade de se locomover confortavelmente para passear e conhecer os belos parques e cidades – independente de qual cidade você pretende ir, pois afinal, o Canadá inteiro é lindo!

Conclusão

Quando nos decidimos tomar um passo grande como ir para outro país (seja para ficar um tempo ou para imigrar de vez), é comum ter aquela ansiedade de fazer as coisas acontecerem o mais rápido possível. Isso pode ser muito bom, pois é o que nos move em busca da realização dos objetivos.

Porém, planejar o tempo ideal dos acontecimentos pode ser essencial para atingir melhores resultados. Converse com sua agência de intercâmbio e escolha seu curso considerando não somente o que você quer estudar ou quando você quer ir, mas também o momento ideal para chegar. Boa sorte e bons estudos!

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O que mudou em apenas 3 anos no Canadá e em Toronto

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Com tanta gente nova chegando no Canadá todos os dias, eu me sinto praticamente uma veterana de Canadá. Só que quando eu vou ver bem, faz apenas míseros 3 anos que moro aqui! Mas é que a vida quando se muda de país é tão intensa, tão agitada, corrida e cheia de estímulos diários, que 1 ano parece uma década, e 3 anos parece uma vida inteira.

O intuito desse post é falar de acontecimentos, mudanças e notícias que eu vi acontecerem entre 2015 e 2018 em Toronto, no Canadá ou na imigração. 3 anos não parece ser muito, mas quando eu parei pra fazer a lista eu percebi que em tão pouco tempo eu vi coisas que não imaginaria que veria por aqui e resolvi lista-las:

Política e Imigração

Eu vi o Express Entry ser implantado

Quando eu comecei meu planejamento para vir para o Canadá, o FSW e os programas provinciais eram as formas de se imigrar. No final de 2014, ainda não havia TANTA informação disponível na mídia e redes sociais sobre imigração, e comecei a fazer meu planejamento antes do Express Entry, na época em que ainda se podia trabalhar durante o curso de inglês. Imagina qual foi a minha surpresa quando no exato momento em que apliquei para o visto em Janeiro, fui descobrir que tudo mudou e quase tive meu visto negado por isso. Long Story Short, deu tudo certo no final, mas muito do meu planejamento foi comprometido por essas súbitas mudanças, e apesar de eu ter vindo pra fazer inglês e college, eu via o drama inicial dos primeiros meses de draws no EE no qual os candidatos chamados tinham todos perto de 500-600 pontos! Haha

Eu vi o Justin Trudeau ser eleito

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Hoje em dia o primeiro ministro é tão amado e pop, que a maioria das pessoas mal se lembra que era o Harper no poder, antes do Trudeau. Eu acompanhei as propagandas políticas da campanha e as inúmeras discussões no Facebook por causa de política. Não, briga em redes sociais não é exclusividade do brasileiro, e podem falar que canadense é educado e tals, mas eu vi uns arranca rabos FEIOS na época! E as propagandas são bem mais suaves e sem o “circo” que é no Brasil, mas é a mesma história de um falando mal do outro, deixando coisas subentendidas, alfinetadas, etc.

Nota: eu também vi o atual presidente dos EUA ser eleito, e apesar de não ser aqui no Canadá, eu via as pessoas discutindo amplamente o assunto nas ruas, escolas, trabalho, etc.

Efeito da crise dos refugiados

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Em setembro de 2015, uma família fugindo da Síria com destino ao Canadá ilegalmente, após ter tido o visto negado, sofre uma grande tragédia pessoal: um dos filhos de apenas 3 anos morreu afogado na tentativa. Mesmo tendo uma tia que emigrou para o Canadá e tentou o processo de asilo para sua família, infelizmente eles não conseguiram ter seus vistos aprovados e no desespero tentaram fugir de outra maneira.

O caso teve comoção internacional e foi quando o governo canadense se pronunciou de forma mais significativa para ajudar os refugiados da guerra. Leia mais aqui.

Não existia o ETA

Essa foi a grande mudança que mais impactou os estudantes brasileiros de intercâmbio e turistas. Antes, a única maneira de portadores de passaporte brasileiro entrarem no país, era tendo um visto canadense válido. Não valia permit válido + visto vencido, não valia visto americano, não tinha autorização de viagem, não tinha nada.

Minha história engraçada: Em maio de 2016 devido a uma situação pessoal eu planejei uma viagem para o Brasil, comprei a passagem para dali a umas semanas depois que acabaram as aulas e #partiu! Eu tinha um study permit válido até 2018, sensacional. Fiquei lá uma semana, e quando estava no aeroporto na fila do check in, não me deixaram embarcar, porque o meu visto (aquele selo que colam no passaporte) estava vencido. Daí mostrei o meu study permit que mostrava data para dali a 2 anos, e daí que o cara do aeroporto foi me mostrar ali em linhas pequenas que aquele documento não me permitia embarcar de volta.

Quase morri do coração, porque eu já tinha de trabalhar dali a dois dias. De fato, não consegui embarcar, precisei aplicar para um novo visto de estudante, novamente com toda a papelada e aguardar. Fiquei um mês a mais do que esperava, mas foi ótimo pois pude ficar mais com a família e consegui não perder o emprego quando voltei!

Greve dos colleges de Ontario

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No Outono de 2017 todos os professores dos colleges de Ontario entraram numa greve sem precedentes. Foi a maior greve das últimas décadas e obviamente, sortudo do jeito que sou, eu peguei ela. Foi o início do ano letivo para a maioria dos cursos e muitos estudantes foram prejudicados, especialmente os internacionais que precisaram renovar vistos para terminar seus estudos, pagar mais tempo de aluguel e ainda por cima, impossibilitados de trabalhar full time para ajudar com as despesas.

Os professores reivindicaram melhores benefícios, contratos de trabalho, entre outras exigências. Durante semanas seguidas houve mediação de poder entre o sindicato e o governo, e eles não entraram em acordo. No final das contas, por decisão judicial os professores voltaram às salas de aula sem conseguir o que eles pediam. Os professores que não participaram do piquete ficaram sem salário, os alunos sem aula, e os colleges com um grande problema administrativo. Infelizmente, ninguém saiu ganhando nessa, e até agora em 2018 os alunos sentiram os efeitos dessa strike.

Leia mais aqui.

Notícias e Mídia Local

Quando o Black Lives Matter interrompeu a Parada Gay

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Em julho acontece a tradicional Parada Gay anual em Toronto, e pessoas de todo o mundo se reúnem para prestigiar o evento e prestar solidariedade. Não é raro encontrar políticos como o primeiro ministro Justin Trudeau ou celebridades, como o elenco de Orange is the New Black. Não é um evento para a comunidade LGBTQ somente, mas famílias e pessoas de todos os tipos assistem a parada para apoiar, celebrar a causa e se divertirem.

Porém na parada de 2016 outro movimento resolveu participar de forma inédita. O Black Lives Matter, que é um grupo visando lutar contra o preconceito racial com as pessoas negras, interrompeu a parada, exigindo que a polícia não estivesse presente, pois ela inibiria a comunidade negra.

Eles bloquearam o evento por mais de 1 hora, na qual eles anunciaram o motivo das intervenções e as demandas deles. Nas semanas seguintes houve uma grande polêmica acerca da discussão sobre preconceitos raciais, homofobia, o trabalho da polícia, e especialmente sob o direito de um movimento interromper o evento de outra para advogar a favor da sua causa.

Leia mais aqui.

O Incêndio de Alberta

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Em 2016 houve uma grande seca e um incêndio se iniciou em florestas em Alberta, desabrigando centenas de famílias. O incêndio foi um dos maiores da história e demorou semanas para que conseguissem apaga-lo. Muita gente viu a notícia passando no Fantástico, e me mandava mensagens perguntando se estava tudo bem comigo. Eu tive de explicar pra eles que sim, pois era como se eu morasse em Porto Alegre e estivesse acontecendo um incêndio ali em Manaus. Pertinho.

Inauguração trem entre Aeroporto e Union Station

Em 2016 foi inaugurado o primeiro trem que liga diretamente o aeroporto Pearson (YYZ) com a Union Station, num trajeto de mais ou menos 20 minutos. Agora, pergunta aqui se a pessoa aqui já usou esse trem! Não faço idéia de como ele é por dentro, sorry folks. Eu sou pobre e vou de metrô mesmo pra casa, com as malas de 30 quilos estourando rezando pro ônibus não sacudir muito.

Jogos Pan Americanos

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Se você acha que hoje já tem milhares de brasileiros andando e turistando por Toronto, você não estava aqui em Julho de 2015. Parecia que a América Latina inteira estava aqui, e o clima era de muita festa. Houveram muitos jogos, muitos shows ao vivo na praça Phillips Square e em diversos outros pontos da cidade. Eu tive a oportunidade de ver de graça shows do Sérgio Mendes, da Janelle Monaé e vários outros artistas de todos os países das Américas.

Em 2015 o Brasil ficou em 3º lugar com maior número de medalhas de ouro, ficando atrás somente do Canadá e Estados Unidos!

Primeiro Streetcar novo foi implantado

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Quando cheguei em 2015, todos os trens de streetcar na cidade eram ainda do modelo antigo. Poucos dias depois, eu vi o anúncio do primeiro streetcar de modelo novo fabricado pela empresa Bombardier rodando da linha 509 da Spadina – Union Station. A promessa era que todos os novos streetcars estariam rodando para a ocasião dos Jogos Pan Americanos em Toronto. Pois é né… Quem está por aqui já sabe que não aconteceu. Estamos em 2018 e agora dá pra ver muito streetcar novo nas ruas, mas não todos. Não é só o Brasil que atrasa nessas entregas! Vira e mexe tem alguma notícia na mídia com a renegociações da produção e entrega dos carros. Leia mais aqui:

Mas vou confessar uma coisa: Eu gosto mais dos modelos velhos! Sim, eles são bem menos acessíveis, tem muitos degraus, tem capacidade muito menor de passageiros, eles vivem cheio de areia de freio nos bancos da frente, mas eu acho eles tão simpáticos e bonitinhos! Hehe

Venda de cervejas nos supermercados

Pode parecer uma notícia boba, mas eu vi começarem a vender bebidas alcoólicas no mercado! Caso você esteja se perguntando: “como assim, e daí??”, deixa eu explicar. Em Ontario e várias outras províncias do Canadá, a venda de bebidas alcoólicas precisa seguir leis muito rígidas. Só se pode comercializar álcool em determinados horários e locais específicos, e todo mundo precisa ter um certificado pra isso. Antes, só se vendia cerveja e vinho em lojas autorizadas, como a LCBO, a Beer Store, a Wine Rack, entre algumas outras. Em 2017 iniciou a venda de bebidas alcoólicas nos supermercados, ainda que não todos. Infelizmente, não ajudou TANTO assim, pois quando eu ouvi essa notícia pela primeira vez eu achei que poderia ir comprar uma latinha de cerveja livremente num domingo à noite se eu fosse no mercado. Não é o caso, porque o mercado pode estar aberto 24 horas, mas a venda do álcool segue os mesmos horários da LCBO. Ou seja: não aumentou o horário de compra, somente os pontos de distribuição.

Aproveitando, caso você tenha intenção de trabalhar em bares ou restaurantes, você também precisa de um certificado, chamado Smart Serve, caso queira saber mais, leia aqui.

O Aquário não estava no city Pass

O Ripley´s Aquarium de Toronto se tornou um dos grandes pontos turísticos nos últimos anos. Quando cheguei aqui fazia relativamente pouco tempo que ele tinha sido inaugurado, e ele ainda não estava incluso nas atrações do City Pass. Ao invés disso era o Science Centre, que particularmente, não gostei muito.

O letreiro no City Hall ainda não existia

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Você imagina vir a Toronto e não tirar uma foto do letreiro no City Hall? É basicamente o mesmo que vir pra cá e não tirar uma fotinho da CN Tower. Desde 2015 ele se tornou parada obrigatória para qualquer turista e ele só foi implantado por ocasião dos jogos Pan Americanos. Após o término do Pan, a prefeitura anunciou que a pedido da população, ele iria continuar.

150 anos do Canadá

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Enquanto o Brasil é um país de mais de 500 anos, o Canadá, é novinho, fez 150 anos em 2017. O país inteirou estava em comemoração por ao menos uma semana inteira no início de julho. Em Toronto, muitas atrações aconteceram, como as queimas de fogos, e shows gratuitos de artistas canadenses, como o rapper Drake, a banda Barenaked Ladies, entre outros.

Ah sim, e claro! O pato de borracha gigante que ficou na Harbour Front, fazendo do Lake Ontario uma gigante banheira.

Inundação de Woodbine beach e a Ilha de Toronto

Em 2017 a primavera foi atípica e choveu MUITO mais do que o esperado. Com isso, a praia de Woodbine ficou alagada, formando um grande “piscinão” no meio da areia. Mas o melhor de tudo foi que a Ilha de Toronto ficou alagada (!?). Como que uma ilha alaga? Ela afunda? haha Pois é, eu também não sei dizer, porque ela foi interditada durante quase todo o verão e eu não pude ver pessoalmente o que aconteceu!

Os turistas que estiveram por aqui no verão de 2017 ficaram meio frustrados por tanta água pela cidade, infelizmente.

A legalização da maconha para fins recreativos

É bem difícil andar por Downtown por muito tempo sem nunca sentir aquele cheirinho básico de marijuana no ar. O uso medicinal é liberado há bastante tempo por aqui, e existem muitos herbanários e lojas espalhadas pela cidade.

Mas se tudo correr dentro do esperado, a partir deste ano o uso de maconha para fins recreativos será liberado, em moldes parecidos com o da venda de bebida alcoólica. Foi anunciado em 2016, era para ter saído em 2017, mas foi postergado para este ano, e abertura de inicialmente pouquíssimas unidades em toda a GTA.

Veja aqui o que será permitido e as regras.

Novas lixeiras orgânicas à prova de guaxinim

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Tá, eu sei que parece piada eu colocar este tópico aqui, mas é porque eu achei muito engraçado. Por volta de março de 2015, a prefeitura de Toronto anunciou que iria implementar novas lixeiras de lixo orgânico à prova de guaxinins. Qual é a relevância disso? Provavelmente nenhuma. Mas pra mim foi um fato marcante porque quando foi e julho do mesmo ano, ou seja, 4 meses depois, ainda era uma das coisas mais noticiadas por aqui, por falta de assunto mesmo. Os jornais locais não tinham ainda parado de falar na tal lixeira “raccoon proof”. Eu vi vídeos de simulação e teste no qual eles colocaram as lixeirinhas num quarto e botaram um guaxinim lá dentro. Ele tentava abrir com suas mãozinhas pequenas, tentava, tentava, e não conseguia.

Ah sim, lá pro final do verão ainda se falava das lixeiras. Porque os guaxinins não conseguiam abri-las, então eles decidiram comê-las mesmo hahahahahaha

Veja aqui o vídeo.

Conrad, o racoon

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Ainda falando de Guaxinins, essa foi ainda mais viral. Um belo dia, encontraram um pobre guaxinim que faleceu no meio da calçada. Os pedestres que passavam por ali ficavam comovidos pela pobre criatura e começaram a colocar florzinhas ao redor dele. Poucas horas depois surgiram os primeiros cartazes com frases em homenagem ao falecido. Mensagens de suporte. Velas. Fotos com dedicatória. Vídeos.

Bom, não preciso dizer que isso caiu na internet e Conrad teve sua homenagem póstuma alcançando a mídia internacional.

Outros famosos da mesma época: o Guaxinim que roubava donuts no Tim Hortons, e a pomba que pegou metrô sozinha.

Quando mudamos de pais, a nossa vida pessoal muda tanto e em tão pouco tempo, que nem sempre temos tempo de lembrar o que aconteceu ao nosso redor. Se você está no Canadá (ou em Toronto) há 3 anos ou mais, com certeza já viu muito coisa acontecer.

Muita coisa muda em apenas 3 anos, não é mesmo? O que mais você lembra que mudou?

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Quando Essa Fase Vai Passar?

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Há não muito tempo, eu passei a pior fase da minha vida. Independente dos motivos e de tudo o que eu já tivesse passado antes, dessa vez conseguiu superar todas as anteriores em gravidade, profundidade, acontecimentos e número total de problemas. Foram muitas tragédias pessoais, umas seguidas das outras, e parecia não ter fim. Não era simplesmente falta de eu tentar ou de agir de forma diferente, muitas coisas estavam além do meu alcance. Não havia simplesmente como superar a pior fase da minha vida, sem entender como lidar com a situação do inevitável, do que fugia ao meu controle.

Várias pessoas vinham me falar que era uma fase, e que logo passaria e tudo seria melhor. E lá no fundo, eu também acreditava nessa maré de sorte-azar e ciclos. A cada aniversário, a cada ano novo, ao fim de cada ano letivo, e até mesmo a cada mudança de estação eu acreditava que o sofrimento estava para acabar e a nova fase estava chegando. E o que acontecia? Mais problemas. Mais desesperança e desalento. Mesmo nos momentos em que eu estava mais positiva, mais otimista ou sonhadora, não importava: tanto o bom quanto o ruim pareciam agir de forma independente às minhas atitudes e desejos, e no final das contas a fase nunca acabava. O ciclo não se rompia.

Hoje em dia, se eu ver alguém passando por uma fase difícil, eu não digo que vai passar. Claro, eu espero que passe, mas evito dizer isso, porque eu não penso mais dessa maneira. Nós não temos como prever o futuro e saber se o destino ainda nos reserva mais más surpresas ou não. Quem sabe prever o futuro?
Mas depois de uma vida toda assistindo a filmes de super-heróis, eu pude aprender algumas coisas. Nesses filmes, eles são pessoas comuns com problemas e um dia eles ganham super poderes. E com esses super poderes, ao invés de resolver os problemas que eles já tinham, trazem ainda muito mais problemas, mais difíceis do que eles poderiam imaginar. Ou seja, mesmo que você ganhe super poderes (ou então no caso, a habilidade de resolver um problema), não irá necessariamente tornar a sua vida mais fácil. Se você está passando por isso agora, é só porque você acabou de passar de fase na vida.

A vida é tipo como um jogo. A cada nível que você passa, aumenta a dificuldade. Ou apresenta desafios diferentes da fase anterior. Algumas pessoas ficam toda a vida empacadas na mesma fase com os mesmos problemas. Mas algumas passam de fase e o nível de dificuldade aumenta. Mesmo que seus “poderes” aumentem.

O que fazer então? Como lidar com os momentos de problemas crescentes em nossa vida?

Outro dia eu fazia uma aula de yoga, e houve um momento muito interessante. Estávamos fazendo um exercício em que nós precisávamos deitar no chão e fechar os olhos, e muita gente não conseguia relaxar o corpo por completo porque o chão era duro. E a instrutora repetiu várias vezes que o chão duro oferece muito suporte.

Ela falava… “The more you surrender, the more supported you are”. Em Português, seria algo como “quanto mais você se entrega, mais você tem apoio”, mais você está seguro.

E ela falou algo do ensinamento da yoga sobre como aplicar isso pra cada momento da sua vida. Para aprender a confiar de olhos fechados porque estamos apoiados pela vida. Que no lugar mais duro é quando estamos mais suportados e seguros. Eu gostei da analogia.

Eu fiquei vários dias repetindo pra mim mesma:
“The more you surrender, the more supported you are.”

Então, confie no destino, viva este momento e todos os aprendizados diários que ele está trazendo. Não anseie tanto pelo momento onde esse problema irá acabar, porque o único momento que realmente existe é o agora. O passado e o futuro nada mais são do que frutos da nossa mente.

O passado é feito de lembranças, e ele é a nossa memória que temos dele, que pode ser totalmente influenciada. O futuro são sonhos, desejos, medos e devaneios. Quando paramos pra pensar bem, a gente se toca que tanto passado como futuro não são reais, que eles só existem em nossas cabeças. Agora, é o único momento no qual realmente devemos estar.

Mais uma vez, não anseie desesperadamente pelo futuro onde seus problemas se resolverão. Pode ser que daqui a um mês seus problemas tenham se resolvido, tanto como pode ser que nesse mesmo tempo você venha a perder algo muito importante pra você agora. Você não tem controle sobre isso, ninguém tem. E se isso acontecer, você desejará que tivesse vivido mais o “hoje” enquanto você tinha o que perdeu.

Confie e viva a lição de hoje a cada dia. Viva o hoje com todas as alegrias e tristezas.

E quer dizer que viver o hoje sem ansear pelo futuro significa viver sem sonhos? Viver sem fé?

Sim, eu perdi a fé. Mais de uma vez. Na primeira vez eu fiquei assustada, mas depois começou a se tornar algo constante e presente, até que me dominou por completo. Eu não tinha mais fé, eu não conseguia acreditar que jamais as coisas poderiam dar certo pra mim novamente, de que eu um dia poderia recuperar a leveza de antes.

Hoje entendo que a fé não é um forte desejo de que algo aconteça. Não é um sonho. Fé não é pedir fervorosamente para que algo se realize.

Fé pra mim é aprender a fechar os olhos, confiar no destino que a vida lhe traz e viver no presente. Depois de tantos “hojes” e tantos “presentes”, um dia eu olho pra trás e consigo conectar os pontos da minha trajetória e ver o que realmente importou.

A fé não diz respeito ao futuro. Ela diz respeito ao presente, e sobre como aprender a confiar na vida, a se entregar no chão duro, e a fechar os olhos sem tentar espiar.

Se sentir seguro, mesmo na escuridão. Hoje.

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Quiz – Expressões em Inglês e Palavras mais usuais

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Por diversão, nos últimos anos eu fui anotando palavras informais ou mais usuais em inglês que eu descobria como usar. Por exemplo: você sabe como dizer “fulano tá fazendo birra”, ou “fulano surtou”?
Pois é, eu não sabia.
Conforme fui aprendendo, fui tomando nota pra não esquecer. Muito disso foi durante a necessidade do dia-a-dia, assistindo séries de televisão sobre cotidiano, e também sempre conferindo a “bíblia” Urban Dicitionary quando alguém me falava algo que eu não entendia.
Um dia resolvi criar esse quiz com essas expressões, por brincadeira. Quantas será que você consegue acertar?
Segue aqui pra quem quiser, e divirtam-se!
Para ver as respostas certas, você precisa clicar em enviar (ou submit) e depois em ver os resultados (view score).

Caso você esteja buscando uma consultoria para intercâmbio e estudos no Canadá ou para outros países de língua inglesa (tanto para cursos de inglês como superior), minha recomendação é a Goal Intercâmbio (Goal Travel). Para trabalhar e imigrar, a empresa do mesmo grupo, Goal Immigration. Algumas pessoas sempre entram em contato comigo para pedir sugestão, então já fica aqui!

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Spinning Lights

Illuminate

Spinning Lights

The moving light changes the place

Of the shadows in my core

I’ve been so long in the darkness

My eyes can’t see anymore

I’m sinking into the dark

And rising in the light

Like a merry-go-round

Spinning in an amusement park

Slowly stepping out of the darkness

Guided by the flashlight of your angels

And the flame of your demons

I’m now walking to the brightness

That dark place now is gone

The shades in my soul ran to their den

Now I can open my eyes

They born again in the dawn sky

Everything now is upside down

And at the rock bottom

I can feel your spark

Even when you are not around

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Um Pouco Mais Sobre Estágio e Faculdade de Publicidade em Toronto

Advertising collage

Dando uns rolês pelo mercado publicitário em Toronto e comendo pizza 🙂

Em 2016 eu estava ainda no primeiro ano do college quando escrevi a respeito das do mercado de Publicidade (Advertising) e Marketing Canadense. Durante o segundo ano do college, eu escrevi a respeito de terminologias, semelhanças e diferenças no primeiro e segundo texto da série rsrs. Agora eu estou na reta final do último ano e consigo relatar melhor como está sendo minha experiência de entrada no mercado de trabalho.
Para vocês entenderem melhor a minha situação: Eu ainda não me formei, mas estou fazendo estágio co-op não-remunerado para conseguir me formar daqui a alguns meses. Escreverei aqui a respeito de basicamente como tem sido essa saga de estudar Advertising e essa entrada no mercado.
Mais uma vez, não custa repetir: A única cidade em que morei, estudei e trabalhei no Canadá, foi em Toronto. Portanto minha experiência e percepção pessoal com certeza pode ser diferente de alguém que more em outra província. Dito isso, vamos lá:

E o mercado de trabalho pra quem quer trabalhar com Publicidade no Canadá?

Antes de você virar e me fazer aquela pergunta “Sílvia, tem bastante vaga na área de publicidade aí no Canadá??” já deixa eu responder: não. E não é que não está sobrando aqui, mas não está sobrando em LUGAR NENHUM DO MUNDO hahaha.
Você que lê agora essa matéria, suponho que já possua algum contato com a área, e por isso mesmo você deve imaginar que é uma área extremamente disputada em qualquer lugar. Claro, é uma área gostosa e interessante de se trabalhar, e as pessoas a escolhem pelos mais diversos motivos: pelos holofotes, glamour da grande mídia, por gostar de artes, por assistir Mad Men, porque é a área de comunicação mais fácil de arrumar emprego do que se comparado a Jornalismo e Relações Públicas, enfim, a lista é longa.
Então não caia naquele conto de que o “Canadá está precisando de mão de obra especializada” se aplica para Publicidade. Por outro lado, é possível sim entrar na área e conheço muitos imigrantes aqui que tem conseguido aos poucos o seu lugar ao sol.

A melhor maneira de conseguir entrar no mercado de trabalho canadense de publicidade é: conseguir o máximo possível de conexões, um bom portifólio em inglês (quando aplicável), e especialmente experiência local. Isso pode ser conseguido através de cursos, meetups, LinkedIn, redes sociais, e tudo o mais que você conseguir para se manter antenado e alinhado com a cultura local e as pessoas.

Como as agências de publicidade são divididas

As estruturas são muito parecidas com as do Brasil, pouco muda. Mas eu sei que em se tratando de agências de publicidade, a organização muda radicalmente de acordo com o porte delas. Por causa disso, falarei me referindo em especial as grandes agências (tanto locais como as que são filiais de grandes multinacionais), porque geralmente as pequenas acabam tendo a estrutura de acordo com a necessidade ou o nicho que elas escolheram seguir.
Os principais departamentos nas agências de publicidade daqui são: Account Management (Atendimento), Media (Mídia) e Creative (Criação). Claro que existem outros departamentos, mas na maioria dos cursos de graduação em Toronto, você acaba escolhendo uma Stream (mini especialização ao final de cada curso), na qual você pode direcionar sua carreira.
Exemplos:
Account Management – vai para Atendimento, Estratégia, Planejamento, Gerenciamento de Projetos e Produção.
Media – vai para mídia tradicional e mídia digital. Quem tem o perfil mais técnico também pode acabar indo parar em SEM ou mesmo pesquisa.
Creative – pode ir para Direção de Arte, Redação (Copywriting) ou Design Gráfico.

Qual college de Advertising escolher em Toronto?

No texto que escrevi sobre Tudo o que você precisa saber antes de fazer um college no Canadá, eu comentei que em geral, qual faculdade você vai fazer não importa tanto, porque de uma forma geral todos eles são bem reconhecidos. O que é verdade sim, não desminto isso. Por outro lado, especificamente para a área publicitária, eu pude notar várias diferenças entre os colleges em Toronto:
Centennial College – É o college que estudo, e também tive a oportunidade de trabalhar lá por alguns meses justamente como “embaixadora” dos cursos de Advertising. Com isso acabei entendendo bem a diferença entre lá e os outros colleges em Toronto que oferecem cursos similares. Todos os cursos da área de Comunicação do Centennial ficam no campus Story Arts Centre, que fica mais próximo de dowtown e da estação de metrô da Pape. Esse campus é o paraíso pra mim, porque é bem menor, bem melhor localizado e com um clima bem mais descontraído que os outros campus do Centennial. É lá onde ficam todos os artistas e produtores visuais, tem estúdios de fotografia, vídeo, rádio, design gráfico, etc. Os cursos de Publicidade disponíveis no Story Arts Centre no momento são: a graduação de 3 anos em Advertising com possibilidade de escolher uma especialização e com estágio coop no final (esse é o que eu faço); e as pós graduações em Account Management, Media e Graphic Design. Todas as pós são de 1 ano e meio com estágio no final.
O Centennial é bem reconhecido na área de Advertising, especialmente para quem escolhe ir para Media, que é onde tem a maior quantidade de vagas e com os melhores salários no mercado publicitário por aqui. Eu acho que meu curso especificamente deixa a desejar na parte de Creative e Graphic Design mas mesmo assim, a base que você aprende no curso de 3 anos é bastante sólida, ao menos foi melhor do que eu aprendi no Brasil.
Humber College – Fora o Centennial, é o outro college que eu recomendo para quem pretende estudar Publicidade em Toronto. Eles também tem cursos de 2 ou 3 anos, bem qualificados. Quando você analisa o curso de graduação de 3 anos do Humber X Centennial, eu diria que o Humber é mais fraquinho em Media e Account Management, mas BEM mais forte em Creative. Eles fazem um pequeno evento chamado Portfolio Show Night no qual os alunos apresentam seus portfólios para profissionais e recrutadores da área, o que pode aumentar bastante as chances de conseguir ser contratado ao final do curso na área de Art Direction ou Copywriting. Fora o fato de que você escolhe a sua Stream mais cedo no curso, então fica menos tempo com a classe inteira, mas mais tempo focado trabalhando no seu portifólio.
Seneca College – Eu confesso que não conheço tão a fundo o curso de Advertising deles, mas tenho encontrado bem pouco estudantes de lá nos eventos que vou. O curso de Graphic Design deles é bom, e tenho visto vários profissionais no mercado em posições entry level vindos do Seneca.
George Brown College – Apesar de ser um college bastante famoso e bem conceituado em Toronto, particularmente acho o curso de Publicidade deles meio fraco. Ele foge totalmente da área Criativa, o que acho muito negativo para quem quer trabalhar na área, não importa qual departamento. Pois, afinal de contas, não importa se você é Atendimento ou Mídia, você PRECISA ter uma base boa sobre as limitações e aspectos técnicos de se criar uma peça publicitária, senão, como você vai conseguir conversar com o cliente? Particularmente acho que só teoria de comunicação e marketing não forma um bom publicitário. Por outro lado, o curso de Design Gráfico do George Brown é muito bom e tenho visto ótimos alunos e profissionais saindo de lá.
OCAD – Menos conhecido por quem está buscando imigrar, é o Ontario College of Art and Design, que com certeza é de longe a melhor opção para quem busca uma carreira em Art Direction, Graphic Design, e tudo o mais relativo a artes visuais. Eu vejo muitos diretores de arte nas agências que vieram de lá. Por outro lado, conversando com vários alunos da OCAD, mesmo eles sendo do curso específico de Publicidade, sinto que eles carecem de mais aulas de estratégia e marketing. Eles tem menos conhecimento para avaliar coisas mais básicas como público alvo, pesquisa, etc. Mas a execução final deles é simplesmente maravilhosa, extremamente profissional e só por isso, eu morro de inveja.
Nota importante 1: não sei se a OCAD é um college público (suspeito que não), então provavelmente quem estude lá não terá direito ao PGWP (leia mais aqui). Mas caso você já tenha o seu PR ou não tenha intenção de estender sua permanência no Canadá após os estudos, a OCAD é uma excelente opção para a área de Creative.

Nota importante 2: várias pessoas da área de marketing costumam e me procurar para tirar dúvidas sobre o curso de Business e Marketing no Centennial. Não posso dar uma opinião clara, porque o meu curso tem campus e administração totalmente diferentes. Eu particularmente gosto muito e recomendo o meu curso no meu campus, mas não posso afirmar nada sobre os cursos da escola de Business, pois é um outro animal totalmente diferente, mesmo sendo áreas mais ou menos correlatas.
Nota importante 3: sinto muito se você busca saber do curso de Advertising em outros colleges de Toronto ou mesmo GTA que eu não listei aqui, mas isso é tudo o que tenho no momento. Depois de 3 anos rodando o mercado, indo a eventos, visitas em agências, fazendo contatos, etc… Eu particularmente não me lembro de ter encontrado alunos e profissionais da área de outros colleges ou universidades além desses. Então infelizmente, não tenho nenhuma informação ou opinião a respeito de outros, mesmo que estes ofereçam o curso de Advertising.

Estágio e Co-op em Publicidade

Os estágios em Publicidade, variam muito de acordo com a sub-área que você escolher, e também de acordo com o tamanho da agência.
Em geral as agências de Publicidade são divididas entre as agências de Criação e Planejamento, e em separado as agências de Mídia. Exemplo: o grupo Omnicon possui a BBDO e a DDB, agências focadas no desenvolvimento das campanhas. E à parte disso, também possui a OMD, que é uma empresa separada mas do mesmo grupo somente para lidar com estratégias de Mídia.
Há também a possibilidade de fazer um estágio em produtoras, gravadoras, departamentos de marketing, empresas de pesquisa, etc. O interessante de Publicidade é justamente poder escolher muitos campos diferentes de atuação.
A área criativa é a mais difícil de se entrar, pois exige um portifólio muito bom. Mas é bastante comum de se ver agências e empresas pegando estagiários para fazer o gerenciamento de mídias sociais, o que pode ser uma porta de entrada especialmente para quem gosta de Copywriting.

Co-op Remunerado e Tax Refund

Creio que essa informação possa ser útil não somente para quem estuda Advertising, mas qualquer outra pessoa que precise fazer co-op.
Recentemente eu precisei procurar um internship placement estilo co-op para poder me formar. Mas fazendo uma entrevista para Marketing, acabei descobrindo que eu não era elegível para concorrer em todas as vagas, pela natureza do meu curso.
Em Advertising, é extremamente comum os non-paid internships, e é uma prática legal, quando esse é feito em troca de créditos para a graduação.
Porém, a nomenclatura “co-op” pode variar de acordo com a instituição. O CIC e o governo, entendem como co-op qualquer internship, que pode ser remunerado ou não, mas que tem a finalidade de aprender e graduar, e precisa de um visto especial porque você está trabalhando, etc.
Mas para algumas empresas privadas, existe a modalidade de estágio Co-op em que elas pagam um salário para o estagiário, e depois conseguem reembolsar esse salário através de tax refund do governo. Isso faz com que no final das contas, a empresa não pague o estagiário, porque o governo irá pagar eles através do subsídio.
Essa modalidade de internship é bastante comum para as áreas de Tecnologia, Engenharia, Marketing e de Business em algumas empresas multinacionais, especialmente indústrias. O que acontece, é que nem todos os cursos de todos os colleges são elegíveis para esse tax refund. E não importa onde você estuda, precisa ser o curso específico. Meu exemplo: eu estudo Advertising num curso avançado de 3 anos no Centennial, um college público. Tenho visto co-op, tudo certinho, mas infelizmente meu curso não é elegível para que a empresa que me contrate faça o tax refund do meu salário com o governo. Meu college possui cursos elegíveis para o tax refund, infelizmente o meu não está nessa lista. Se alguém me contratar para estágio e quiser me pagar um salario, é a critério do empregador, mas ele não poderá fazer o reembolso.
Resumo da ópera: quem tem de fazer coop nas áreas de Marketing ou Advertising, verifique com o college se o seu curso especificamente é elegível para o tax refund por parte das empresas. Essa pode ser uma informação importante quando você for fazer uma entrevista para o seu placement.
No Summer internship em geral não tem esse problema, mas em Co-op internship isso pode acontecer. No meu caso impediu minha contratação, porque era um bom salário. A empresa não iria querer me pagar “do bolso” se poderia escolher outro candidato elegível para poder reembolsar do governo depois rsrs

E aí, fazer co-op? Sim ou não?

Muitas pessoas em geral optam por não fazer co-op pois é um semestre a mais que você precisa pagar, para essencialmente trabalhar de graça. O co-op muda muito de curso para curso, então a duração do co-op pode variar. Existem alguns co-ops pagos em Publicidade, mas já alerto que a maioria não é pago, e alguns pagam somente uma ajuda de custo com transporte.
Apesar de tudo, é uma ótima opção para se ganhar experiência na área, fazer contatos e se formar já tendo uma job offer, o que para um estudante internacional que quer imigrar, é ouro! Mas claro, cada um pode avaliar melhor a própria situação financeira antes de escolher um curso co-op. O fato é que eu vejo muitos profissionais que chegam aqui com o work permit ou PR e tem dificuldade para se inserir no mercado de trabalho, precisando fazer trabalhos voluntários. Já que vai ser necessário inicialmente trabalhar de graça, por que não fazer isso sendo supervisionado pelo college e pelas agências?

Conclusão – Não tenho uma.
Queridos leitores, desculpe decepcioná-los, mas não tenho uma conclusão! Simplesmente porque eu ainda não posso dizer que fiz 100% meu caminho de entrada na área de Advertising no Canadá, mesmo tendo algumas experiências profissionais em Mídias Sociais por aqui. Eu sou muito curiosa, e visitei todas as agências, produtoras e lugares que pude. Fui a encontros e possuo um pequeno networking estabelecido por enquanto, mas ainda estou buscando meu emprego na área Criativa, com planos A, B e C também. Quem sabe, daqui a um ano eu possa escrever um artigo mais completo, e espero que cheio de dicas e histórias de sucesso, haha
Por enquanto, essas são as informações que posso oferecer a vocês, e se alguém tiver algo a contribuir, é só deixar um comentário que eu adicionarei a info com muito prazer aqui.

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O Fim da Letra de Mão

Quando eu cheguei no Canadá e fiz aulas de inglês, sempre tinha aquela coisa de “passe o texto para o seu amigo do lado e voce lê o dele, e ele lê o seu”.

Eu tenho uma letra horrível e quando as minhas colegas de classe coreanas falavam que não conseguiam entender o que eu tinha escrito, eu ficava sem graça. Depois de um tempo eu fui perceber que elas estavam muito mais sem graça que eu, e com muita vergonha e eu não entendia o porquê. Eu fiquei cutucando até elas me contarem a verdade: elas nunca aprenderam letra cursiva e não sabiam ler ou escrever qualquer coisa em letra de mão, somente letra de forma. Eu fiz um “dicionário” pra elas com todas as letras, maiúsculas, minúsculas, de forma e de mão, e so aí elas conseguiram entender o que elas estavam lutando há meses nas aulas de inglês, mas tinham vergonha de falar para o professor.

Ate aí tudo bem. Mas nos anos seguintes, colegas de classe canadenses me falaram que não sabiam ler ou escrever em letra cursiva. Hoje eu vejo esse artigo na internet, falando sobre o possível fim dela.

Eu achei algo extremamente curioso, pois no Brasil e em outros países latinos, a letra de mão se aprende na escola e para o resto da vida, e muita gente só sabe escrever desse jeito (tipo eu!). Mas com a globalização, a interação maior com os países que não usam o alfabeto romano e especialmente com os computadores e a internet, a letra de mão está prestes a se tornar obsoleta. Hoje pra completar eu tive aula sobre Tipografia e meu professor mais do que confirmou essa tendência pra mim e achou até curioso que em países latinos ainda seja tão comum o uso de letra cursiva.

Acho melhor eu começar a treinar pra escrever com letra de forma, ou vou virar um dinossauro em breve.

Adeus pingos no “i” com formato de coração! rsrs

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Uma Reflexão Sobre a Perda de Alguém

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Eu sempre me considerei uma pessoa de sorte, porque cresci e passei uma longa vida adulta sem perder alguém muito próximo da família; meus avôs faleceram antes de eu nascer, e quando ainda criança perdi alguns tios, mas que não tinha tanto contato porque ainda era pequena. Perdi sim uma prima e um amigo que amava muito, mas o núcleo familiar básico (pai, mãe e irmãs) continuava intacto. Mas há cerca de um ano atrás, eu sofri uma perda muito grande com o falecimento da minha mãe.

Minha mãe foi uma guerreira durante toda a sua vida e sempre lutou contra diversos problemas de saúde que quase a levaram embora quando eu tinha 4 anos de idade. Depois disso, ela passou muito tempo em hospitais fazendo as mais diversas cirurgias, até que um dia após 2 anos se tratando de um câncer, ela se foi.

Não vou mentir, estar preparado para a perda de alguém que está com um problema de saúde crônico é um pouco mais fácil de absorver do que perder alguém de repente, no susto. Mas absorver mais fácil obviamente não diminui a dor da perda. De fato, boa parte do sofrimento do luto eu passei alguns meses antes dela falecer, quando eu tinha o cruel pressentimento de que aquilo aconteceria em breve, mesmo nos momentos em que ela estava melhor. Existia esperança mas também um pressentimento.

Eu estava há meses me preparando para a dor que sentiria quando ela fosse embora, e havia um agravante pelo fato de eu morar em outro país. Eu me preparava para o que fazer se isso acontecesse de repente, como eu iria agir, que atitudes eu iria tomar. Eu imaginava inicialmente, que de nada adiantaria eu sair correndo para acompanhar o velório dela, afinal de contas ela já teria falecido e ali não estaria mais a minha mãe e somente o corpo material dela, não representando quem ela de fato era. Eu imaginava que eu conseguiria superar isso de forma relativamente mais fácil por ter o apoio de muitos amigos e pessoas que se importam comigo, e por eu estar me preparando para a ideia da morte dela basicamente desde que eu nasci (ela quase morreu quando eu tinha 4 anos de idade, e isso me traumatizou e eu cresci minha vida inteira achando que a qualquer momento ela morreria). Não importa quantas vezes eu tenha racionalmente pensado sobre o assunto, no exato momento quando tudo aconteceu, eu mudei tudo o que eu havia pensado e foi diferente.

Eu jamais irei me esquecer, que naquele domingo frio e chuvoso eu estava trabalhando, e eu sabia que ela precisou ir para o hospital porque passou mal, mas estava estável e consciente. Eu passei o dia inteiro deprimida, preocupada, com um sentimento inexplicável. Àquela altura minha mãe já tinha passado dezenas de dias em hospitais e saiu, e aquele poderia ser mais um deles, mas o sentimento ruim dessa vez era diferente. Coisas estranhas aconteceram no final do expediente. Quando eu desci na estação central de metrô eu vi a mensagem de minha irmã me pedindo para ligar para ela e ali eu já sabia o que tinha acontecido. Tudo o que eu lembro naquele momento, é de uma cena em câmera lenta: pegar o celular, ver a mensagem, andar com as mãos trêmulas para um canto mais vazio, sentar no chão e ligar para ela para ouvir a notícia. Eu ouvi, falei com minhas irmãs e após desligar e comunicar as pessoas que precisava naquele momento, eu chorei sentada naquele canto por mais de 30 minutos. Eu ainda passo todos os dias na frente daquele exato ponto na estação do metrô e mesmo que eu evite olhar para ele, eu não consigo ignorar a presença daquele lugar. Aquele ponto é o marco que me lembra sempre de quando perdi parte de mim e minha vida nunca mais seria a mesma, o momento em que pisquei e tudo mudou. Já tentei ir por outro caminho e evitar passar ali, mas simplesmente o fato de pensar em evitar aquele lugarzinho, me faz lembrar dele e o sentimento é o mesmo, dá na mesma. Por isso parei de tentar fugir e desviar dele e continuo vivendo minha rotina inalterada ao andar ali.

Naquele momento da notícia, tudo o que eu queria era correr para lá e ir abraçar meu pai, minhas irmãs e minha avó, queria ver minha mãe, queria me despedir dela e encontrar um encerramento, prestar uma última homenagem a ela, pois sei que era isso que ela teria querido. Eu não tinha como voar para o Brasil, mas nessas horas a gente dá um jeito para tudo e consegui comprar uma passagem de última hora para chegar lá na noite do dia seguinte. Minha família conseguiu adiar o enterro em mais um dia para aguardar a minha chegada. Não preciso dizer que foi o mais longo e doloroso vôo da minha vida. Minha cabeça latejava de tanto chorar e eu não conseguia dormir, estava ansiosa e segui uma viagem silenciosa e sofrida, encolhida em um assento de avião, quando a minha vontade era de sair correndo, gritar, expressar minha revolta com o mundo.

Eu não queria divulgar nada em redes sociais e aquele momento eu somente queria privacidade para chorar quieta no meu canto com minha família, mas a pedido deles próprios eu divulguei o falecimento dela e as informações sobre o enterro. Depois eu vi que foi muito positivo eu ter feito isso, pois mais gente pôde ir ao velório dela. Porém, ao mesmo tempo choveram centenas de mensagens de pessoas de todos os lugares, perguntando o que tinha acontecido, mostrando preocupação, choque, curiosidade, tristeza, etc. Eu não tinha cabeça para responder nada daquilo, pois apesar de eu saber que as pessoas são bem-intencionadas ao fazer isso, eu não tinha energias nem mesmo para manter os olhos secos, quanto mais para responder quem queria manifestar preocupação comigo. Haviam muitos detalhes para cuidar, desde quem iria me buscar no aeroporto, a até qual roupa minha mãe iria usar no caixão.

A forma de lidar com uma perda e o apoio emocional que cada pessoa precisa é diferente. Muitos amigos meus compareceram ao velório para me dar apoio e também aproveitar a oportunidade para me ver. Mesmo que sob tais circunstâncias, eu com certeza fiquei feliz com isso, após passar o momento inicial (na hora do choque eu queria somente enfiar a cabeça num buraco, como um avestruz). Mas pra mim na verdade foi muito mais importante em ver lá as pessoas que eram especiais para a minha mãe: os amigos dela da igreja, de infância, os alunos, pais de alunos, parentes dela que eu não conhecia. Aquele momento não era sobre mim e minha dor, mas sim sobre o legado dela e a homenagem e sentimentos que as pessoas foram prestar a ela. Eu sempre tive a comum concepção de que você vai a um velório para dar apoio aos que ficaram, mas ali quando eu era a que tinha ficado, eu vi que não era sobre mim, sobre qualquer pessoa da minha família, mas somente sobre ela. E chorei copiosamente quando pessoas que a amaram foram lá para se despedirem dela, e finalmente entendi que a despedida é sim, importante. É um doloroso ritual, mas necessário, porque todo mundo precisa de um fechamento, e fechamento não significa esquecimento.

Após uma semana eu retornei para o Canadá e obviamente eu deveria em algum momento aprender a seguir a vida, afinal de contas, a da minha mãe havia se encerrado, mas a minha continuava. Lembro-me de uma amiga comentar que eu deveria estar doida pra voltar ao trabalho (pois eu sempre trabalhei o máximo que eu podia e eu precisava do dinheiro), e apesar dela saber o meu estilo, tudo o que pude dizer a ela foi que voltar a trabalhar era a última coisa que eu queria. Lá foi o lugar que passei o dia preocupada com minha mãe no hospital, e eu estava ali ao invés de estar com ela em seu último dia de vida. Tudo doía, respirar doía, dormir doía, ficar acordada doía mais ainda.

Com o passar dos dias eu fui voltando à vida normal no College e no trabalho, e mesmo num ritmo muito mais devagar do que o que eu levava antes da morte dela, eu ainda não conseguia acompanhar. Eu via os dias passarem, as pessoas viverem e fazendo tudo o que elas tinham de fazer, e eu parecia que estava assistindo um filme acelerado girando à minha volta, enquanto eu olhava para mim mesma e para minhas mãos em câmera lenta. O mundo estava correndo e eu estava parada tentando acompanhar.

Após algumas semanas eu voltei a tentar sair com os amigos, mas as pessoas riam e brincavam e eu não achava graça em nada, às vezes ria por educação. Nos poucos momentos em que eu realmente me divertia, eu logo em seguida me sentia culpada por estar me divertindo. Culpa aliás que já me era bem familiar, porque enquanto minha mãe estava viva e doente, todos os momentos em que eu ria um pouquinho, eu me sentia culpada. Como eu podia rir enquanto minha mãe estava presa a uma cama do outro lado do mundo? Como eu podia rir, quando rir me fazia lembrar da perda dela? Durante algum tempo eu simplesmente tomei a decisão de não sair mais com os amigos, porque eu não queria rir. Eu sabia que aquilo não seria para sempre, mas que naquele momento eu não queria rir, e eu não entendia se essa minha atitude era por culpa ou por respeito, eu não entendia os motivos.

Algum tempo depois eu comecei a entender que na verdade era porque eu não estava pronta para deixar ela ir embora. Ela já havia ido embora fisicamente, e eu não estava pronta para deixar a lembrança dela ir embora; eu não estava pronta para mais uma perda. Era como se caso eu começasse a rir e ser um pouquinho feliz, eu estivesse deixando ela ir de vez. Com um ou dois meses da morte dela, eu queria me apegar mais ainda a tudo dela: olhava todas as fotos dela, tentava lembrar tudo o que ela já havia me dito ou ensinado, abraçava sua echarpe, me cercava dos poucos objetos dela que trouxe comigo para o Canadá. Ouvia a última mensagem de áudio que ela me mandou, e repassava mentalmente tudo, conversava com minha família sobre as coisas dela, sobre a história dela. Eu tinha a sorte de não estar todo o dia na casa da nossa família rodeada das coisas dela, mas também tinha o azar de estar longe quando tudo o que eu queria era estar ali no ninho ajudando a manter viva a lembrança.

E o engraçado é que nesses mesmos dois meses do falecimento dela, eu sentia o movimento quase contrário das pessoas sobre falar comigo a respeito. No momento da notícia, havia uma enxurrada de gente vindo falar comigo pra dizer palavras bonitas de apoio, e eu não tinha cabeça para absorver nada daquilo. Eu confesso que nem queria tanto assédio, mesmo que super bem intencionado. Mas depois de um certo tempo que ela tinha falecido, toda vez que eu trazia a conversa para os meus amigos e conhecidos, a reação geral era a deles fazerem cara de chateado, olharem para os lados, para baixo, e não saber o que dizer, até porque muitos nunca tinham passado por uma situação dessas antes. Alguns que já passaram, não tinham o “dom da palavra” pra me dizer algo realmente relevante, e acabava ficando aquele “climão” e as pessoas desviavam a conversa, supondo que eu não queria falar do assunto (mesmo quando eu tocava nele).

Com o tempo eu simplesmente parei de conversar sobre isso, porque constrangia as pessoas, mesmo as que mais me amavam e se importavam comigo. Eu percebi que eu só conseguia conversar com quem também tinha perdido ela, e estava no mesmo estágio que eu: minha família. Mas eles estavam longe, e mesmo conversando por internet, eu me sentia sozinha, como nunca me senti em toda a minha vida. Existia um grande mundo e me sentia numa pequena ilhazinha isolada. Ninguém queria prolongar o assunto comigo porque ninguém queria me ver derrubando mais lágrimas, mas eu também não queria felicidade artificial. Talvez eu precisasse derrubar ainda algumas lágrimas. Eu comecei a chegar ao ponto em que eu não queria incomodar ninguém com minha dor para desabafar, porque eu me sentia mal por não conseguir dar continuidade à minha vida, como é o esperado. Eu não sei quantas vezes eu toquei no assunto “morte da minha mãe” com as pessoas ao redor e provavelmente nos momentos errados, mas cheguei ao ponto que eu mesma comecei a achar que eu era uma vitrola quebrada que não conseguia falar de outra coisa. Decidi então me calar por ambos motivos: por ninguém conseguir me dizer nada que realmente me ajudasse a superar a dor e por eu não querer incomodar mais ninguém com o mesmo assunto desconfortável que tirava todo o bom ânimo de qualquer conversa. Eu não sei quantas vezes eu fui inconveniente de trazer o assunto à tona, também não sei o quanto eu machuquei as pessoas por ter me isolado depois, mas não existe resposta pronta para lidar com a dor e essa foi a minha única reação possível, e obviamente ninguém teria como entender e adivinhar algo que nem mesma eu sabia pôr em palavras.

Um dia eu decidi que independente do que a minha mãe pensava ou acreditava, ela vivia dentro de mim, com tudo o que ela me ensinou e me passou. Eu olho para o meu antebraço e coxas e vejo que tenho exatamente o mesmo desenho das veias dela, e as mesmas pintinhas cor-de-rosa na pele, com o sangue dela correndo em minhas veias. E seria simplesmente um pecado muito grande se eu parasse de viver minha vida e de ser feliz, pois afinal, se ela estivesse viva ela desejaria que eu o fosse. Obviamente, depois desse dia em que comecei a pensar dessa maneira eu ainda tive muitos altos e baixos, muitos dias de tristeza e nostalgia, de remoer e de me culpar. De pensar o que ela falaria quando eu contasse tal novidade. Que ela gostaria daquela comida, ou daquele objeto. Do aniversário dela, do Dia das Mães. A vida acaba eventualmente virando um calendário com uma contagem de “quantas dessas datas ela não está mais aqui” e “quais dessas coisas ela gostaria”. E essa é uma dor que se aprende a viver com ela, embora nunca cure de verdade. Você precisa aprender a rastejar para depois andar e correr.

Houveram dias em que a dor podia ser tão forte que se assemelhava à própria morte. Mas se lembre-se de que a dor existe somente nos que vivem: os mortos não sentem dor. Houveram momentos em que eu estava tão amortecida de tantas dores que eu havia passado no conjunto da coisa, que eu poderia jurar que eu não estava vivendo mais. Eu lutei internamente para conseguir ficar totalmente anestesiada para parar de sentir dor e sobreviver, sem perceber que no final das contas, a ausência de dor não é vida, não é sobreviver. A presença de uma dor, por menor que seja, mostra que você é um ser vivente, pulsante e que respira. Viver é sentir, mesmo aquilo que não queremos sentir.

Eu sempre fui uma pessoa de ter sonhos muito vívidos à noite. Quando eu durmo e sonho com ela, acordo extremamente feliz, pois eu tive a chance de vê-la e matar um pouco das saudades que sinto. Independentemente do que sejam esses sonhos (visões? aparições? alucinações? frutos da minha imaginação?), não me importa, pois ver ela em meus sonhos me fez acordar sorrindo e me ajudou a passar os momentos difíceis dos meses seguintes. Eu sei que nunca mais a verei aqui, então se a vir de alguma forma já acho positivo, mesmo que não possa tocar e abraçar.

No exato mês que completou um ano da morte de minha mãe, eu revivi a nostalgia do sentimento de dor que passei na mesma época de seu falecimento. Eu me deixei sentir parte de tudo aquilo novamente, mas diferentemente da primeira vez, não porque queria me apegar à lembrança dela, por culpa, por tristeza ou por qualquer sentimento que eu senti antes: mas sim para me lembrar que EU estava viva. Eu preciso achar forças para viver, e que senão por mim, mas por respeito a ela e à vida que ela me deu. Devo seguir em frente. Ela passou a vida inteira sofrendo com a dor e eu sinto que é de certa forma minha obrigação e legado a aprender a curar essa dor e viver. A partir do momento que você sente dor você está vivo, mas a dor também indica que existe algo que deve ser feito para parar aquela dor e voltar a viver. Eu optei por viver, em honra àquela que me deu a vida.

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